terça-feira, 8 de novembro de 2016

Estamos com preguiça de ler?



Com o advento da era da internet e a consolidação das redes sociais, as relações humanas sofreram alterações nas estruturas. Principalmente no que se refere a exposição da vida privada e dos pensamentos mais obscuros. É possível conhecer mais de um ser humano por uma postagem despretensiosa ou por um comentário do que em 1 hora de conversa presencial.
Descobrimos o que há de mais atrasado, reacionário, homofóbico, racista, fascista no amigo de infância, no colega de trabalho, no chefe, na simpática senhora da padaria...O benefício da dúvida dá lugar a certeza imutável da opinião baseada em muitas convicções e poucos argumentos. E ai de alguém que discorde! Pior, ai de alguém que prove que estamos errados! Não há previsão de tal acontecimento em uma mente fechada que não consegue entender a maravilhosa falseabilidade do conhecimento.
A internet hoje serve como uma arma muito poderosa contra o monopólio da mídia. Ao contrário dos “especialistas” ouvidos pelos principais jornais do país, várias autoridades científicas em algum assunto podem apresentar suas ideias livremente em seu próprio blog ou em formato de vídeos.
Em um país como o Brasil, em desenvolvimento, onde o uso de internet e novidades digitais estão muito à frente do acesso a uma educação de qualidade, é iminente a geração de situações conflitantes, vergonhosas, criminosas em redes sociais, pelos mais diversos assuntos. Onde outrora existia a escassez de informação, atualmente somos tomados pelo excesso dela advinda da rede. O desafio contemporâneo é saber filtrar, selecionar e escolher o que serve e o que é puro lixo virtual.
Atualmente é muito fácil ser ofendido por defender uma opinião. Muitas vezes o agressor demonstra na própria mensagem completo desconhecimento do assunto em questão, mas se sente no “direito” de opinar. A internet criou milhões de conhecedores de “tudologia” de facebook.
Das mais clássicas em que toda pessoa que defende direito social é esquerdista, socialista, comunista, bolivariano (como se fossem a mesma coisa ou se referissem a algum tipo de ofensa). Uma lida no Capital de Marx e Engels (ou até o miudinho Manifesto Comunista) ajuda. Outra é que todo crítico do governo Temer ou do PSDB é defensor do PT (como se o PT fosse esquerdista, socialista, comunista ou bolivariano), partido criticado até pela esquerda...por ter traído a própria pauta da esquerda.
Outra consequência comum é a propagação de notícias inverídicas, em que alguém cria um blog, monta uma imagem de alguma notícia falsa e compartilha com outras pessoas. Muitas não checam a fonte, acreditam cegamente, comentam, passam adiante e aumentam a corrente de desinformação. O título as vezes é ainda mais importante que o texto! “A ignorância é uma benção!”, frase tão citada mundo afora e eternizada pelo personagem Cypher do filme Matrix que descreve bem essa situação.
O que chama mais a atenção são os comentários rasos, sem base, num ambiente virtual que não é apropriado para uma discussão mais aprofundada. O problema é a falta de conhecimento para opinar. Por isso a provocação no início do texto: estamos com preguiça de ler? Mandar alguém ler um livro (mesmo falando com a melhor das intenções) é encarado como ofensa. Mas pensemos: de que adianta opinar sobre algo que não sabemos, ouvimos falar de outros, não pesquisamos na fonte?
Será que seriamos a favor da PEC 241 (ou PEC 55 no senado) com o argumento de que ela só “congela” o investimento com educação e saúde por 20 anos (!) se tivéssemos lido um livro de geografia e descobríssemos que não estamos na Finlândia, nem na Suécia ou Noruega que têm suas redes de saúde e educação estabilizadas e de qualidade? Que moramos num pais de democracia jovem e que ainda precisa investir muito mais do que os valores atuais porque simplesmente o atual não está garantindo uma saúde e uma educação digna para nos tirar de um atraso histórico?
Que falta faz um livro de história para aprendermos que se não fossem os sindicatos, as greves, os movimentos sociais no mundo inteiro, muitos dos nossos direitos corriqueiros como carteira assinada, férias, 13º, jornada de 44 horas semanais sequer existiriam. Conheceríamos a situação dos trabalhadores ingleses no auge da revolução industrial e suas condições sub-humanas. Quem sabe assim evitaríamos ofender os grevistas e poderíamos nos enxergar como classe trabalhadora também e apoiássemos suas reivindicações.
Ou ainda, uma lida em um livro de Sociologia nos afastaria da vergonha de questionar alunos que ocupam escolas, acusando-os de manipulados (uma das ofensas mais brandas) simplesmente por lutarem contra medidas impopulares, rechaçadas por inúmeros especialistas e acusada de inconstitucional pela própria Consultoria Jurídica do Senado Federal,
Será que chamaríamos uma pessoa de doutrinada se tivéssemos lido um livro de Filosofia e percebido que a escolha e a ênfase das matérias nos veículos de comunicação que são usadas para influenciar o leitor é doutrinação. Dar ibope a uma manifestação popular e esconder outra de pensamento diferente é doutrinação! Criminalizar a ação da vítima ao invés do agressor é doutrinação! Ser obrigado a se calar e a obedecer sem justificativa é doutrinação!
A bola da vez é a atribuição da figura de um professor a um ser perigoso. Será porque na escola é ensinado que a abolição da escravidão no Brasil não veio pela bondade de uma princesa iluminada e sim de lutas dos escravos, que muitos morreram e que hoje as marcas sociais ainda permanecem e necessitam de reparação? Porque eles ensinam que o poder deve estar na mão do povo e que os políticos precisam respeitar sua vontade e governar em detrimento do interesse dos grandes grupos de mídia que estão na mão de poucas famílias?
A vergonha alheia em alguns comentários e postagens se mistura a um sentimento de fracasso na educação de um país em que um âncora de jornal parece, ao grande público, ter a verdade inquestionável saindo de sua boca e um professor em sala de aula é tratado como um agente do “mal”. Que a discordância da opinião não vem de um embasamento crítico-reflexivo, mas por conveniência em apenas discordar da tal ideia, pessoa ou grupo que eu odeio, mesmo que a opinião dela faça mais sentido que a minha.
Toda e qualquer proposta, teoria, argumento, ideia, doutrina vem carregada de virtudes e vícios, simplesmente por se tratar de construções advindas do pensamento humano. A maravilha da democracia está no constante aperfeiçoamento de tais construções humanas para a melhora da qualidade de vida de um povo, de uma nação, de um planeta. Um povo esclarecido é terrível para um governo! Igualdade total? Difícil, utópico, sonho impossível... Mas, parafraseando Eduardo Galeano, a simples crença nessa utopia é que faz com continuemos em frente.
A falta de leitura materializa a frase de Cazuza na genial música “O tempo não para” quando o poeta declama: “Eu vejo um museu de grandes novidades”. Onde vemos isso? Entre naquele site de “que ninguém conhece” e procure pelo vídeo do historiador Leandro Karnal discutindo assuntos da contemporaneidade a luz de...Hamlet, de Shakespeare, de forma brilhante. Para muitos a obra quase quincentenária do Bardo parece novidade. Ou ainda quando se desconhece a mistura da obra do menos idoso Ariano Suassuna com trechos do Mercador de Veneza (outra obra do inglês) no ótimo filme “O Auto da Compadecida” (“Couro. Uma tirinha só, nenhuma gota de sangue, que sangue não estava no contrato”, alguém lembra? Pois isso não é do saudoso Ariano).
Será que alguém vai ler esse texto na integra? Alguns podem dizer “Parei de ler quando esse @#&*% falou no nome de Marx” e resolvem não cansar seus frágeis neurônios, guardando-os para entender o próximo capítulo da novela e a “profundidade” de seus personagens e enredos.
Saiba que se você leu até aqui com certeza meu trabalho de professor foi feito! Não lhe ensinei nada. Apenas lhe desafiei a ler e apreciar a sua maravilhosa liberdade e sua maldição! Como disse o filósofo Heráclito de Éfeso: “Ninguém entra no mesmo rio duas vezes”. É claro que é ingenuidade achar que só leitura e criticidade é suficiente para uma transformação social. Mas é um passo fora do grande poço de desigualdade cultural que permeia nossos tempos.
Cada vez mais a leitura é uma parte extremamente importante para a formação de cidadãos esclarecidos e aptos a uma transformação. Só que atualmente ela é cada vez mais difícil de ser encontrada no varejo. Citando mais um defunto famoso: “Saber é poder”, atribuída a Francis Bacon. Como a leitura ainda não está cotada em dólar vamos aproveitar a liquidação!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O simples, o belo e o desnecessário



Essa semana ao acessar a internet, vejo a noticia da jovem que fraturou a quinta vértebra da coluna ao sofrer uma queda enquanto realizava na academia uma variação do exercício de abdominal conhecido como “abdominal invertido”, que consiste em inclinar o corpo quase que de cabeça para baixo e com os pés presos tentar deslocar o tronco para próximo dos joelhos.
Segundo a notícia, ela teria colocado os pés em um banco feito para exercício de bíceps, os amarrados com um elástico enquanto fazia abdominais de cabeça para baixo, quando a fita estourou e ela caiu de cabeça no chão. Esse exercício foi imortalizado em uma versão hardcore feita por Sylvester Stallone (claramente com efeitos de edição) em um celeiro no frio da Sibéria no filme Rocky IV (Só Mr. Stallone mesmo).
Apesar da literatura científica apresentar muitas outras possibilidades de se executar um exercício para o abdômen de forma menos acrobática e com resultados semelhantes ou melhores, (nesse caso específico o mais seguro seria a ajuda de outra pessoa segurando os pés ao invés do improviso com um elástico ou ter usado um banco específico para tal fim) o que mais me chamou a atenção na noticia não foi o exercício em si, mas que foi oferecido ajuda de um profissional de Educação Física e ela declinou alegando que treinaria sozinha pois já tinha “experiência” e sabia seu treino.
O resultado também não me deixa surpreso. Nos tempos em que trabalhei em academias de musculação na cidade de Feira de Santana tive conhecimento de diversas situações tais como: deslocamento dos ombros ao executar um exercício para o peitoral, lesão na coluna por conta de má execução no exercício de agachamento, fratura por stress da tibia provocado pela carga excessiva no osso, entre outros casos menores. Em todas essas situações o aluno antes do ocorrido dispensou a ajuda do professor, preferindo “malhar” sozinho.
Me pergunto o que aconteceria se o paciente de um consultório odontológico falasse ao Ortodontista que não precisaria fazer a revisão porque ele tinha “experiência” de 3 anos com o aparelho na boca e por isso ele mesmo iria fazer a troca dos componentes do aparelho ou ainda que um paciente aumentaria a dose de sua medicação por usa-la há muito tempo e já conhece-la, mesmo que o Médico fosse contra. Isso só pra citar exemplos propositalmente ridículos.
É claro, que é importante que as pessoas busquem sempre mais o aprendizado em algo que os interessa e a sabedoria popular ainda parece ter seu espaço. Até hoje dentes são arrancados com uma linha de costura presa a porta, pessoas se automedicam com remédios tarja vermelha e infelizmente jovens ainda submetem seus ossos, músculos e articulações a pesos em espaços “fundo de quintal” sem o mínimo de conhecimento técnico.
Entretanto, não é porque aprendemos processos elementares de uma determinada profissão que estamos seguros e confortáveis pra adentrar em situações de maior nível de aprofundamento técnico, por que vai chegar uma hora em que, como diz a filosofia contemporânea... “a casa vai cair!” Devemos sim valorizar os profissionais que estudaram anos a fio, investiram muito em livros e cursos e podem prestar um serviço com competência... e esses profissionais não são baratos!
            Apesar do ambiente mais informal (e das músicas no mínimo questionáveis que permeiam a maioria delas), as academias de ginástica são no mundo atual importantes locais de prestação de serviço voltados para o tratamento e  manutenção da saúde, assim como uma clínica de cardiologia, de odontologia, fisioterapia etc.
É preciso que os empresários do ramo entendam isso também, invistam em cursos de gestão esportiva, podendo assim acabar com certos estereótipos que mais afastam do que aproximam clientes (como o citado acima) e executem um maior controle nos casos dos alunos “experientes” que gostam de se exercitar sozinhos, principalmente no que diz respeito as acrobacias aprendidas em revistas ou no YouTube. Esse resguardo é importante porque mesmo que o estabelecimento aparentemente não tenha tido culpa direta no caso da jovem, seus responsáveis poderão responder processo na justiça.
Para os usuários de academia digo que o objetivo deve sempre ser a saúde, de forma que a estética virá com o tempo. O bem mais precioso e (até que me provem o contrário) o único que realmente somos donos é nosso próprio corpo. Se utilizar dos aparelhos sem auxilio ou deixar que um “profissional” sem formação lhe oriente através de exercícios só porque cobra mais barato, é um risco que pode ir de uma dor debilitante no dia seguinte a uma lesão irreversível tempos depois.
Alguns podem pensar: “mas eu nunca tive nada”. Uma dose errada de um remédio pode levar horas para mostrar seus efeitos colaterais. A dose errada de um exercício físico pode levar anos. Antes de começar um treinamento, faça uma avaliação médica, depois uma avaliação específica na própria academia e sempre procure ajuda do professor.
Se puder contratar um Personal trainer, se importe mais com o tamanho de sua formação acadêmica e o número de cursos que ele fez do que com o tamanho de seu bíceps. Desconfie dos “profissionais” que só enxergam o aumento dos pesos, sem se preocupar com a posição segura do exercício, a velocidade que o exercício é executado, o tempo de descanso entre um exercício e outro, o controle e periodização adequada a seu objetivo que são, em muitos casos, mais importantes do que a troca do pino de uma placa pra outra mais baixa, numa frenética competição de quem puxa mais carga. Perguntem sempre! O porquê de cada exercício, da ordem, do número de repetições etc. Seus joelhos e coluna agradecerão um dia.
A jovem que citei no inicio do texto é apenas mais uma vitima dessa sociedade de consumo, das aparências, da busca desenfreada de um irreal e inalcançável corpo perfeito, da estética das cascas bonitas, do exterior mais “saudável” que o interior, das selfies em frente ao espelho durante o treino, da compra desenfreada de suplementos caros que depois de ingeridos são em sua maior parte eliminada na urina do dia seguinte e dos bíceps e coxas cavalares conseguidos em poucos meses mas que não passariam no resultado de um teste de laboratório.
Já existem academias de ginástica em nossa região com profissionais de Educação Física atuando e a tendência é que novos profissionais venham a ocupar esses espaços, prestando um serviço cada vez mais qualificado a sociedade. Paralelamente a isso, é importante também batalharmos pelo fortalecimento e ampliação dos programas de atividade física públicos para aqueles que não podem pagar mas que também tem os mesmos direitos de ter uma vida mais ativa e saudável.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sentença definitiva contra o Sistema Confef/Cref na Bahia!

Para os alunos dos cursos de Educação Física da Bahia que ainda tem dúvidas sobre o campo de atuação da nossa área, segue anexo a sentença definitiva da Justiça Federal proibindo o Sistema Confef/Cref de restringir a atuação do Licenciado em Ed. Física no campo não escolar sob multa de R$ 500 por profissional que sofrer qualquer tipo de constrangimento deste orgão. Então, meus colegas que querem atuar com atividade física, esporte, lazer fora da escola...estudem, aproveitem a graduação, busquem se especializar e o céu será o limite pra vocês!

Clique no link abaixo para fazer o download da sentença na integra.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

VITÓRIA PARA A EDUCAÇÃO FÍSICA 2

MAIS UMA DERROTA DOS QUE INSISTEM (CREF/CONFEF) ATACAR A CLASSE TRABALHADORA!! AGORA É AÇÃO CIVIL PÚBLICA!!
 
"No último dia 24/09 o Juiz Evandro Reimão dos Reis, da 10ª Vara, exarou a sentença sobre a Ação Civil Pública contra o CREF13/CONFEF. Em síntese decidiu-se que:
o CREF 13 não poderá mais emitir carteiras profissionais com a indicação/restrição do campo de atuação e deverá substituir as cédulas já emitidas, sempre que houver solicitação do profissional, sem custos.
Divulgue-se amplamente esta decisão judicial que repetiu o resultado da liminar anterior e as sentenças dos estados de Goiás e Paraíba."
http://www.facebook.com/elson.moura.1/posts/266969300072643?comment_id=1121057&ref=notif&notif_t=like

quinta-feira, 19 de julho de 2012

VITÓRIA PARA A EDUCAÇÃO FÍSICA!!!!

Segue abaixo relato do Prof. Elson Moura sobre a audiência pública realizada em Feira de Santana.

Retirado de: http://mncref.blogspot.com.br/2012/05/cref-nao-pode-emitir-registro.html

CREF NÃO PODE EMITIR REGISTRO DIFERENCIADO



Relato da audiência pública do Ministério Público Federal, seção de Feira de Santana; 10 de Maio, 2012. Tema: “O exercício profissional de licenciados em Educação Física e as limitações impostas pelo CONFEF: em debate, a possibilidade de atuação em academias e outros ambientes extra-escolares”
Antes de relatar, de forma sintética, o decorrer das quase 6 horas de audiência, cabe uma rápida caracterização dos acontecimentos anteriores que nos levaram até esta audiência. A partir do ano de 2009, o Cref 13 passou a emitir registro para os egressos do curso da UEFS com a designação “Educação básica”. Isso, por motivos óbvios, causou uma revolta entre os egressos. O Cref 13 pretensamente se pautava nas Resoluções CONFEF nºs 182/2009 e 112/2005. Fomos repetidas vezes procurados pelos ex alunos para saber como proceder. É neste sentido que em 2011 se monta no Colegiado do curso uma comissão para apurar o fato. Nesta estão presentes os Professores Elson Moura Dias Junior, Gilmar Mercês e o, então acadêmico, Aislan Barbosa; presidida pelo primeiro. Portanto dois membros do MNCR compõem a comissão: Elson e Aislan (hoje professor formado e coordenador do Núcleo Feira de Santana).

Ao mesmo tempo em que organizávamos documentos (especialmente o Parecer Uirapuru) e procurávamos o setor jurídico da instituição, um empresário do ramo do fitness, dono de academia, se sentindo prejudicado por não poder mais contratar profissionais egressos da UEFS procura o Ministério Público Federal. Para resolver a questão, o MPF instaura um Procedimento administrativo. A UEFS é convocada a prestar esclarecimentos sobre esta pretensa impossibilidade (fruto da limitação de atuação inscrita no registro). Redigimos uma resposta baseada nos documentos legais que balizam o curso (07/2004, especialmente) e nos argumentos presentes na Ação Civil Pública do MPF de Goiás.

Para tentar esclarecer a situação, o MPF – seção Feira de Santana- convoca uma audiência pública. Foram convocados o CONFEF, o Cref 13, o Colegiado do curso de EF da UEFS e a comissão. Alem disso o Procurador pediu auxílio ao procurador do Ministério do trabalho (já que esta questão interfere diretamente na relação de trabalho).

No último dia 10 de Maio, às 14 horas teve início a audiência. Já de início, a presença do Presidente do CONFEF, Jorge Stienhilber, nos deixou clara a importância que o Conselho estava dando ao fato. O risco de que esta ação se generalize é grande.

A fala iniciou com 15 minutos do empresário que iniciou o processo. Este mostrou uma série de dúvidas sobre a questão; para ele, o egresso da UEFS tem todo o perfil para atuar no espaço da academia. Mas, nas suas próprias palavras, se estes estão sendo impedidos, a UEFS deveria os ter alertado.

Depois foi nossa vez (UEFS) de fazer a fala. Dividimos em 2 falas de 30 minutos: 1) Questões teóricas da Educação Física, bem como uma síntese do projeto do curso para justificar nossa posição favorável à atuação plena; 2) Elementos jurídicos (Ofício 229 de Curitiba, 07/2004, Parecer Uirapuru, Ação Civil Pública de Goiás e Liminar concedida pelo MPF da Bahia - número: 44645-56.2011.4.01.3300).

Após, a fala foi franqueada para os representantes do CONFEF e Cref 13. Quem iniciou a explanação foi o membro do Cref 13, Francisco Pitanga. Este se empenhou em localizar uma série de instituições de nível superior em que o bacharelado já foi implementado. Alimentou-se de sua posição de avaliador e não teceu comentários sobre os argumentos que trouxemos. Foi seguido pelo Jorge Stenhilber que apresentou uma serie de documentos – interpretados por eles para justificar que não existe esta possibilidade de atuação plena.

A palavra foi franqueada à plenária e uma dezena de questionamentos foram feitos. Alunos, egressos, professores universitários, coordenadores de curso e até o Reitor da UEFS fizeram falas no sentido de questionar a posição intransigente do CONFE/Cref´s. A cada fala, a plenária se expressava com palmas e gritos (às vezes de pé). Um clima de hostilidade – ainda que educado - foi criado. As pessoas estavam muito revoltadas.

Em um dado momento da audiência, o foco da mesa já tinha sido extrapolado. A falta de debate – por parte do Cref - fez com que as pessoas colocassem uma série de questões (até mesmo questionando a existência do Conselho). O senhor Stenhilber, mais experiente, esquivava-se daquilo que ele sabia que era melhor não tocar (ADI 3428, por exemplo). Limitava-se à pequenas respostas e afirmava que não existia possibilidade de atuação plena. O senhor Pitanga, por sua vez, se prendeu num emaranhado de questões que sequer conseguia sustentar. Tentou colocar os estudantes da UNEB (onde também leciona) uns contra os outros, mas foi prontamente refutado pelos alunos, colegas e coordenadora do curso.

Foram muitas as expressões (teremos acesso à filmagem e disponibilizaremos) de contrariedade ao Cref. O Procurador, de forma bem conduzida, solicitou que fossem evitados ataque pessoais. Uma vez que alguma situação nesse sentido acontecia, o direito de resposta era cedido.

Na audiência, o Procurador afirmou a importante posição, indicando que dede 23 de Fevereiro de 2012, o Cref 13 está impedido de emitir registro com a limitação de atuação. Isso, por conta da decisão Liminar do MPF da Bahia supracitada. A advogada do Cref, confirmou que eles estavam obedecendo a decisão do MPF. Ainda assim os representantes do Conselho pressionavam o Procurador afirmando que os egressos não podiam atuar em todos os espaços. Isso acabou forçando o procurador a explicitar novamente, passo a passo, a Liminar e reafirmou que ela deveria ser seguida pelo Cref sob pena de punição.

Ainda assim, o debate sobre outros assuntos seguiu-se de forma intensa. Nós estávamos já tranqüilos com a decisão do Procurador e tratamos de tocar nos outros pontos. Depois de um exaustivo debate (foram quase 6 horas) a audiência foi encerrada e o procurador, pela 3º vez, reafirmou a decisão: o Cref 13 está desautorizado a emitir registro diferenciado.

Uma tentativa última de pressão sobre o Procurador foi organizada por eles após o término, mas agimos rápido para tumultuar a tentativa. Elementos importantes que ficam:

1) A Liminar não é a ultima instância da decisão; por enquanto o Cref 13 pode recorrer. Em Goiás, por exemplo, não existe mais possibilidade de recorrer; já é decisão de ultima instância.
2) Enquanto não sai a decisão, vale a Liminar.
3) O Procurador vai encaminhar ao Juiz que sejam abarcados também os pretéritos, ou seja, os profissionais que solicitaram registro antes do dia 23 de Fevereiro, data em que vigorou a Liminar.
4) Mais do que nunca a luta do MEEF para revogar as diretrizes (07/2004) faz-se imprescindível. A todo momento era falado que mesmo não havendo restrições, os cursos tinham que se adequar às novas Resoluções.

Termino relatando que foi de uma emoção muito grande poder participar de tamanha expressão de força dos estudantes e professores contra o CONFEF/Cref´s. Força na luta!

Elson Moura é professor do curso de Educação Física da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Pesquisador da Linha de Estudo e Pesquisa em Educação Física & Esporte e Lazer (LEPEL/UEFS). Militante do MNCR-Feira de Santana.


Faixa exposta no plenário

Exposição da UEFS