quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O simples, o belo e o desnecessário



Essa semana ao acessar a internet, vejo a noticia da jovem que fraturou a quinta vértebra da coluna ao sofrer uma queda enquanto realizava na academia uma variação do exercício de abdominal conhecido como “abdominal invertido”, que consiste em inclinar o corpo quase que de cabeça para baixo e com os pés presos tentar deslocar o tronco para próximo dos joelhos.
Segundo a notícia, ela teria colocado os pés em um banco feito para exercício de bíceps, os amarrados com um elástico enquanto fazia abdominais de cabeça para baixo, quando a fita estourou e ela caiu de cabeça no chão. Esse exercício foi imortalizado em uma versão hardcore feita por Sylvester Stallone (claramente com efeitos de edição) em um celeiro no frio da Sibéria no filme Rocky IV (Só Mr. Stallone mesmo).
Apesar da literatura científica apresentar muitas outras possibilidades de se executar um exercício para o abdômen de forma menos acrobática e com resultados semelhantes ou melhores, (nesse caso específico o mais seguro seria a ajuda de outra pessoa segurando os pés ao invés do improviso com um elástico ou ter usado um banco específico para tal fim) o que mais me chamou a atenção na noticia não foi o exercício em si, mas que foi oferecido ajuda de um profissional de Educação Física e ela declinou alegando que treinaria sozinha pois já tinha “experiência” e sabia seu treino.
O resultado também não me deixa surpreso. Nos tempos em que trabalhei em academias de musculação na cidade de Feira de Santana tive conhecimento de diversas situações tais como: deslocamento dos ombros ao executar um exercício para o peitoral, lesão na coluna por conta de má execução no exercício de agachamento, fratura por stress da tibia provocado pela carga excessiva no osso, entre outros casos menores. Em todas essas situações o aluno antes do ocorrido dispensou a ajuda do professor, preferindo “malhar” sozinho.
Me pergunto o que aconteceria se o paciente de um consultório odontológico falasse ao Ortodontista que não precisaria fazer a revisão porque ele tinha “experiência” de 3 anos com o aparelho na boca e por isso ele mesmo iria fazer a troca dos componentes do aparelho ou ainda que um paciente aumentaria a dose de sua medicação por usa-la há muito tempo e já conhece-la, mesmo que o Médico fosse contra. Isso só pra citar exemplos propositalmente ridículos.
É claro, que é importante que as pessoas busquem sempre mais o aprendizado em algo que os interessa e a sabedoria popular ainda parece ter seu espaço. Até hoje dentes são arrancados com uma linha de costura presa a porta, pessoas se automedicam com remédios tarja vermelha e infelizmente jovens ainda submetem seus ossos, músculos e articulações a pesos em espaços “fundo de quintal” sem o mínimo de conhecimento técnico.
Entretanto, não é porque aprendemos processos elementares de uma determinada profissão que estamos seguros e confortáveis pra adentrar em situações de maior nível de aprofundamento técnico, por que vai chegar uma hora em que, como diz a filosofia contemporânea... “a casa vai cair!” Devemos sim valorizar os profissionais que estudaram anos a fio, investiram muito em livros e cursos e podem prestar um serviço com competência... e esses profissionais não são baratos!
            Apesar do ambiente mais informal (e das músicas no mínimo questionáveis que permeiam a maioria delas), as academias de ginástica são no mundo atual importantes locais de prestação de serviço voltados para o tratamento e  manutenção da saúde, assim como uma clínica de cardiologia, de odontologia, fisioterapia etc.
É preciso que os empresários do ramo entendam isso também, invistam em cursos de gestão esportiva, podendo assim acabar com certos estereótipos que mais afastam do que aproximam clientes (como o citado acima) e executem um maior controle nos casos dos alunos “experientes” que gostam de se exercitar sozinhos, principalmente no que diz respeito as acrobacias aprendidas em revistas ou no YouTube. Esse resguardo é importante porque mesmo que o estabelecimento aparentemente não tenha tido culpa direta no caso da jovem, seus responsáveis poderão responder processo na justiça.
Para os usuários de academia digo que o objetivo deve sempre ser a saúde, de forma que a estética virá com o tempo. O bem mais precioso e (até que me provem o contrário) o único que realmente somos donos é nosso próprio corpo. Se utilizar dos aparelhos sem auxilio ou deixar que um “profissional” sem formação lhe oriente através de exercícios só porque cobra mais barato, é um risco que pode ir de uma dor debilitante no dia seguinte a uma lesão irreversível tempos depois.
Alguns podem pensar: “mas eu nunca tive nada”. Uma dose errada de um remédio pode levar horas para mostrar seus efeitos colaterais. A dose errada de um exercício físico pode levar anos. Antes de começar um treinamento, faça uma avaliação médica, depois uma avaliação específica na própria academia e sempre procure ajuda do professor.
Se puder contratar um Personal trainer, se importe mais com o tamanho de sua formação acadêmica e o número de cursos que ele fez do que com o tamanho de seu bíceps. Desconfie dos “profissionais” que só enxergam o aumento dos pesos, sem se preocupar com a posição segura do exercício, a velocidade que o exercício é executado, o tempo de descanso entre um exercício e outro, o controle e periodização adequada a seu objetivo que são, em muitos casos, mais importantes do que a troca do pino de uma placa pra outra mais baixa, numa frenética competição de quem puxa mais carga. Perguntem sempre! O porquê de cada exercício, da ordem, do número de repetições etc. Seus joelhos e coluna agradecerão um dia.
A jovem que citei no inicio do texto é apenas mais uma vitima dessa sociedade de consumo, das aparências, da busca desenfreada de um irreal e inalcançável corpo perfeito, da estética das cascas bonitas, do exterior mais “saudável” que o interior, das selfies em frente ao espelho durante o treino, da compra desenfreada de suplementos caros que depois de ingeridos são em sua maior parte eliminada na urina do dia seguinte e dos bíceps e coxas cavalares conseguidos em poucos meses mas que não passariam no resultado de um teste de laboratório.
Já existem academias de ginástica em nossa região com profissionais de Educação Física atuando e a tendência é que novos profissionais venham a ocupar esses espaços, prestando um serviço cada vez mais qualificado a sociedade. Paralelamente a isso, é importante também batalharmos pelo fortalecimento e ampliação dos programas de atividade física públicos para aqueles que não podem pagar mas que também tem os mesmos direitos de ter uma vida mais ativa e saudável.

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